Era amor antes de ser! Eu e PP, PP e Eu

Era dezembro de 2010, após uma tempestade, a pior que já presenciei na Capital. Árvores tombaram com a força do vento, as ruas viraram rios, a energia se foi. De volta para casa, na garagem às escuras, ouvi um miado.

Atenta, identifiquei que provinha de um carro, mais precisamente na região do motor, aproximando percebi que o capô estava quente, o carro havia recém chegado ao prédio, como confirmou o porteiro, que contou também da tentativa de localizar o animal, mas foi em vão. Como assim? Desmontassem o carro se preciso fosse, havia uma vida lá dentro. Foi aí que percebi que a missão era minha. Aquela impressão de ter sido escolhida!

Mobilizei forças para acudir aquele pedido de socorro.

Subi as escadas correndo, seis andares, sem energia – sem elevadores, pedi a chave do veículo para a proprietária que ressaltou: ‘traga depois, só a chave do carro, o gato não, por favor’. Pois bem!

Já de volta na garagem abrimos o carro, ele já não miava, me deixando aflita. ‘Aguenta firme disse eu, estou aqui, logo ficará tudo bem, confie em mim’. Era angustiante imaginar que havia um ser vivo lá dentro.

Insistimos, ele miou baixinho, o resgate não parecia fácil pois havia se alojado entre o motor e o painel. Gatos são friorentos e curiosos, ao perceberem um lugar aquecido se instalam, na maioria das vezes não conseguem sair a tempo do ‘esconderijo quentinho’.

Manobrei meu carro para iluminar o local. Retirá-lo por cima seria impossível. Por acaso o zelador José estava no prédio. Zé como é conhecido não gosta de aproximar de animais, ‘garro amor’, depois eles partem. Era sábado, prontamente ofereceu ajuda, colocou a mão por entre as frestas, retirou e me entregou.

Tão pequenino. Tão frágil. Agora sob meus cuidados.

Emoção singular! Em minhas mãos uma vida, não mais ou menos importante que a de qualquer outro ser vivo (assim eu penso), assustado, magro e com várias queimaduras nas almofadas das patas e no focinho.

Já em casa ele saciou a fome – um pires de leite.

A Priscila, nossa gata resgatada prenhe da rua três anos antes estranhou absurdamente aquele ser de pelos arrepiados, sujo e assustado, já a Mel, nossa cadela, uma Cocker maternal, logo se afeiçoou ao bichano a ponto de ceder seu colo na hora de dormir.

A princípio não foi dado nome algum, não desfrutava de todos os espaços da casa para evitar o apego, a proposta era arrumar um lar. Naquele momento era apenas o ‘hóspede’.

Confesso que isso não me agradava. Já estava encantada pelo Príncipe, nome que batizei secretamente. Ele já era meu!

As tentativas de arrumar um lar foram frustradas. A realidade para os gatos é ainda pior que a dos cães. Os abrigos dão preferência para cachorros e não é qualquer pessoa que tem simpatia por felinos.

Ele fica! Éramos um do outro. Já no veterinário, o querido Dr. João Fidelis, fez o que devia ser feito e calculou a data aproximada do seu nascimento, 20 de Novembro daquele ano. Esperamos o prazo e fizemos a castração.

O hóspede que se tornou Príncipe, depois Príncipe Pirulito, hoje PP, alegra e dá sentido aos dias.

Salvar significou um momento mágico em que o coração e a mente, a sensibilidade e a compaixão resultaram em ação, tudo mudou, juntamente com a vida desse ser.

Onde quer que eu vá pela casa, PP me acompanha. Durante a narração desta história ele transita entre meu colo e a bancada do computador, às vezes anda sobre o teclado para chamar atenção. É cia constante. Uma alegria!

No momento que convido PP para beber leite, ele traduz definitivamente que a felicidade está nas coisas simples, tamanha é sua euforia quando recebe o convite, e posteriormente seu ar de satisfação e gratidão.

Assim o Cortisol cede espaço à Ocitocina, e a sensação de bem estar é um ganho extraordinário pelo simples ato de conviver e compartilhar. A emoção de salvar e acolher uma vida são indescritíveis.

É fascinante esse processo de acreditar na força de uma ideia – a de que não existe vida mais ou menos importante, e não desistir de trilhar o caminho que vai de encontro às ações que avalizam esse sentimento, sem explicar, pois amor não se explica, apenas se sente.

4 Comments
  • juliana lopes

    muita gente um gato simples -eu não gato muito especial achado precariamente mai cuidado carinhosamente por uma pessoa que tem muito mais que um coração bom mas alma e o resto do corpo inteiro e já te admirava mais agora te admiro muito mais

    • Auriane Rissi

      Eu e PP somos gratos por seu carinho. Lindas palavras Juliana. Linda vc. BjBj

  • Wow…Auriane.
    Obrigado por compartilhar tão sensível história.
    Abraço,
    Beto.

    • Auriane Rissi

      Wow…Adalberto.
      Que alegria saber você por aqui, e mais, saber que tem afeição pelos felinos.
      Uma história de amor!
      Por sua sensibilidade em compreender, sou grata.
      Abraço

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