O cérebro solitário

A percepção de que estamos conectados aos outros é algo vital para um ser humano, uma vez que, em nosso passado evolutivo, estar segregado do grupo significava menos acesso a fontes de alimento e a chances de acasalamento, e ainda levava a uma grande vulnerabilidade aos predadores. Estudos de antropólogos com sociedades caçador – coletoras de pigmeus na África, por exemplo, demonstraram que os membros que são expulsos da comunidade passam a vagar solitariamente e têm grande probabilidade de morrer. Ou seja, ser solitário, no passado evolutivo de nossa pré-história, era uma condenação à morte e a não deixar descendentes.

Hoje, não temos mais os terríveis predadores do período Paleolítico superior, mas, de qualquer forma, a solidão torna muito improvável que se ache um parceiro. Para nosso cérebro que evoluiu na pré-história, a solidão é algo a ser evitado. A fome indica falta de nutrientes vitais, a dor física sugere alguma lesão nos tecidos, e, por essa razão, sentimos um conjunto de sensações desagradáveis que nos impulsiona a buscar algo para comer ou retirar a parte do corpo da situação que machuca. De modo semelhante, a solidão produz ansiedade e dor emocional que nos pressiona para buscar conexão com o grupo, algo essencial para nós humanos.

Não é à toa que os biólogos colocam a espécie humana na categoria de ultra sociais, pois temos sociedades complexas onde dezenas de indivíduos cooperam em empreendimentos coletivos, assim como abelhas, formigas e cupins. Mas o que acontece no cérebro solitário? Em nosso cérebro, existe uma região chamada Área Tegmentar Ventral, ou VT A, como é denominada em inglês, que está conectada com o núcleo accumbens, uma espécie de centro de prazer. Quando a VT A libera dopamina no núcleo accumbens, temos a sensação de prazer. Estudos recentes mostram que a VT A monitora a satisfação de necessidades vitais, como alimentação, acasalamento e laços sociais.

Esse monitoramento é baseado em pistas fisiológicas do corpo e do cérebro. Por exemplo, liberamos bastante dopamina com sexo e orgasmo, mesmo usando camisinha. Isso acontece porque os sinais hormonais que são acionados fazem o cérebro interpretar que estamos aumentando a chance de deixar descendentes. Nesse caso, é uma sorte que nosso cérebro possa se enganar, mas, no caso da solidão, o engano do cérebro pode levar a inúmeras consequências negativas. A percepção de solidão aciona a ancestral reação de lutar ou fugir, pois é interpretada pelo cérebro como uma forte ameaça à sobrevivência e à reprodução. 

Existe uma ampla gama de diversidade de reações individualizadas na percepção de solidão. Algumas pessoas são mais resistentes e não percebem o isolamento de forma estressante, possivelmente porque são descendentes de linhagens humanas de exploradores. Os exploradores, personalidades com intensa busca de novidades e pouco medo do desconhecido, foram figuras importantes nos grupos sociais do passado. Numerosos estudos têm mostrado que a solidão é responsável por um leque de problemas de saúde, contribuindo para a doença de Alzheimer, transtornos do sono, aumenta o risco de demência e morte prematura, e é uma das principais causas de depressão.

Um estudo revelou que a solidão causa uma expressão exagerada nos genes em células cardíacas, e estas produzem uma reação inflamatória que lesiona o tecido do coração. Quando falamos que a solidão pode partir o coração, não é apenas uma metáfora. Neurocientistas descobriram que a percepção de exclusão usa a mesma rede da dor física no cérebro. Ou seja, a solidão dói, literalmente. O importante neurotransmissor serotonina é reduzido quando a pessoa sente solidão, dificultando o controle de pensamentos, emoções e impulsos. Isso diminui as funções executivas e aumenta a dificuldade de inibir impulsos de prazer imediato, como comer em excesso, beber ou usar drogas.

Segundo John Cacioppo, neurocientista da Universidade de Chicago, a solidão encoraja o consumo de mais gordura e açúcar na dieta, alcoolismo, sedentarismo e uso de drogas. Isso faz sentido se pensarmos que a solidão dói e que as pessoas tendem a fazer coisas que aliviam essa dor, como lançar mão de estratégias mais imediatistas para se sentir melhor. Para um cérebro imediatista que precisa desesperadamente de dopamina, a decisão de comer mais uma fatia de torta pode acabar se tornando a mais atrativa naquele momento. Portanto, a solidão pode impulsionar uma espiral descendente de comportamentos que aliviam a dor do isolamento no primeiro momento, mas que, em um segundo estágio, aumentam, mais ainda, a solidão.

É comum que as pessoas que sentem solidão não tenham falta de atratividade ou de habilidades sociais, pois é a percepção de isolamento e os pensamentos e crenças, muitas vezes distorcidos, que realmente geram a sensação de estar desconectado. Nosso cérebro social faz comparações e pode interpretar que se está isolado e em uma posição inferior na hierarquia social, mesmo que, de fato, a pessoa esteja muito bem posicionada. Uma olhada no Facebook e alguns pensamentos distorcidos e chega-se à conclusão de que se está de fora, enquanto as pessoas estão integradas, postando fotos perfeitas, com vidas sociais intensas.

O cérebro emocional e social não faz distinções finas e incorpora a percepção de isolamento, sem considerar que estamos vendo uma montagem de melhores momentos. Paradoxalmente, uma rede social pode contribuir para a solidão, ao induzir uma percepção exagerada da socialização dos outros e um sentimento de estar à parte da festa da vida.

Marco Callegaro
Publicado originalmente na Revista Pisque

Para saber mais:

Cacioppo, J. T.; S. Cacioppo. Social Relationships and Healththe Toxic Effects of Perceived Social Isolation. Soc Personal Psychol Compass, v. 8, n. 2, p. 58-72, 2014.

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